A chuva vem, mas de
onde, será do fundo do peito ou do alto do céu? A chuva vem, mas ela poderia
demorar mais, porque às vezes não leva o que tem que levar, apenas molha todo o
entulho e o deixa mais pesado.
Está tudo guardado, mas
vai chover e a água vai fazer as comportas abrirem, não há mais lugar para se
esconder. Quem dera a água me carregasse. Quem dera ela me arrancasse do lugar
onde estou presa e afogasse de mim o que me prende.
Meus olhos já não enxergam
tão bem, estão afogados nas águas que me sufocam. Me afogam. Invadem-me. Molham
meu corpo, meu orgulho, minha alma. Águas geladas ou quentes? Qual é a
temperatura da chuva? Não sou mais capaz de sentir. Mas sinto que sobre mim a
chuva se abate. Cada pingo caindo como se fosse uma bala e em pouco tempo meu
corpo já esta entregue, não há mais nenhum lugar em que eu não tenha sido
atingida.
Não há o que fazer?
Dentro desse mundo, esse mundo em ruínas sobre o qual a chuva cai impiedosa num
ato de caridade. Esse mundo onde o desespero entorpece a alma que vaga. Esse
mundo onde a única sinfonia é a da chuva caindo. Num mundo como esse choverá
sempre ou a chuva um dia vai cessar? E se a chuva passar, a dor terá ido
embora? Esse mundo conhecerá outra coisa que não a desordem?
Não há respostas para
todas as perguntas, então eu digo apenas que a chuva vem, então que venha, que
chova, que molhe, que inunde, que afogue. Que me leve e nunca mais traga de
volta.

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